domingo, 2 de março de 2025

Do paquiderme



Dizem que para domar um elefante, lhe prendem a uma corrente ainda novinho. Nos seus primeiros meses e anos tentará o elefantezinho seguir livre, mas sempre será puxado pela corrente e fustigado pela vara. Ao passar dos anos conhecerá exatamente sua medida e o alcance de sua liberdade. Já cansado de tantas tentativas sossega o espírito ou, quem sabe, o apazigua. Aprende ainda jovem o que pode  e o que não pode. A verdade é que, a corrente não acompanha o crescimento nem a sua força, mas isso pouco importa, porque não será mais demandada em sua tarefa de contenção, sua presença é simbólica. O Elefante não se arriscará a sofrer a dor da frustração nem ao chicote.

Mas, o que acontece quando já gigante descobrir a fragilidade de sua corrente? Sempre imaginei uma fuga sensacional. Obviamente, nos tempos modernos em que vivemos não faltam exemplos de elefantes descontrolados[?] fugindo pelas ruas. O fato é que os ousados são minoria, e fico pensando se todos os que estão sob as correntes são ignorantes de sua força sobre as mesmas. Talvez já tenham descoberto que o preço a se pagar pela fuga quase sempre é o extermínio. E nesse momento o senso de preservação os controla, pior que os elos nem tão fortes do aço, são aqueles que lhe fizeram subserviente a um estado de coisas.

Tem me ocorrido que, talvez, talvez, o elefante sempre soube que pode livrar-se. E, a despeito do seu iminente risco de morte, quando a ideia, ah... a renitente ideia de liberdade o possui,  já se vê dando os primeiros passos e depois a corrida para longe. Não importa se serão curtos os momentos em que viverá livre, serão certamente melhores que uma vida inteira de negação.

E, se escolhe permanecer como se não o soubesse das fraquezas de sua corrente, lembrará muito tempo depois que sempre foi livre, ainda que ninguém o soubesse. Aposentado e preterido, sem correntes, já sem forças para correr ou ir muito longe, se alegrará o velho paquiderme, com lembranças do que poderia ter sido, por onde teria andado livre?

Do cálice

No cálice de vinho tinto, choroso... Vou te bebendo.
E você desce pela garganta impregnado, perfumando.
Vai ganhando o corpo, acordando tudo nele.
Vai levando o resto da resistência,
Deixando verdades não ditas.
E no fim.. exala, eu exalo.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Diáfano

O amor é mesmo uma coisa sem tempo e sem termo. 
É a soma dos afetos. 
O que de nós eterniza o mais humano sagrado profano.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Saldoce (A 2 mãos)

Era um estranho hábito aquele.
Ninguém jamais soube quando começou.
Antes fora um capricho, uma brincadeira. Que virou mania, depois necessidade, um vício.
Os médicos proibiram, por fim desenganaram.
Pediu que a levasse uma última vez ver a arrebentação.
Quando as ondas quebraram aos seus pés, antes mesmo que alguém pudesse lhe impedir, aparou com as mãos e bebeu.
E, como que por milagre, caiu no mar uma última lágrima doce.
***
Como se a existência naquele instante ainda fosse possível, lembrou-se de como em sua julgada loucura, o sal lhe parecia muito mais amável do que o doce.

O sal era sua obsessão, sua escuridão, sua loucura, mas também sua salvação. 

Seria o último bel-prazer, doce como as noites solitárias, sua última resposta?
Julgariam o mar, presente de outrora, como sua pena e absolvição?
                       ***
Este texto conta com a linda participação de Newton Vitorasse!
Obrigada, New, por tornar Saldoce completo ❤️

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Inércia

E agora que os céus nos ouviram e a vida deu uma pausa,
o mundo desacelerou.
E o relógio não despertou,
nem o telefone tocou.
E não precisou-se mais de sair às pressas.
Agora o café esfria na mesa,
enquanto se pensa na lista da feira, mas não há feira,
nem quermesse.
No rádio, TV e internet as mesmas velhas notícias.
De um mundo velho, de antigas tristes manias.
Sentimos saudades dos sonhos, empenhamos promessas.
Como quem assina um cheque sem fundos, tendo fé na loteria.

(em construção)